sexta-feira, 26 de dezembro de 2008
Futuros amantes - Chico Buarque
Não se afobe, não
Que nada é pra já
O amor não tem pressa
Ele pode esperar em silêncio
Num fundo de armário
Na posta-restante
Milênios, milênios
No ar
E quem sabe, então
O Rio será
Alguma cidade submersa
Os escafandristas virão
Explorar sua casa
Seu quarto, suas coisas
Sua alma, desvãos
Sábios em vão
Tentarão decifrar
O eco de antigas palavras
Fragmentos de cartas, poemas
Mentiras, retratos
Vestígios de estranha civilização
Não se afobe, não
Que nada é pra já
Amores serão sempre amáveis
Futuros amantes, quiçá
Se amarão sem saber
Com o amor que eu um dia
Deixei pra você
Que nada é pra já
O amor não tem pressa
Ele pode esperar em silêncio
Num fundo de armário
Na posta-restante
Milênios, milênios
No ar
E quem sabe, então
O Rio será
Alguma cidade submersa
Os escafandristas virão
Explorar sua casa
Seu quarto, suas coisas
Sua alma, desvãos
Sábios em vão
Tentarão decifrar
O eco de antigas palavras
Fragmentos de cartas, poemas
Mentiras, retratos
Vestígios de estranha civilização
Não se afobe, não
Que nada é pra já
Amores serão sempre amáveis
Futuros amantes, quiçá
Se amarão sem saber
Com o amor que eu um dia
Deixei pra você
quinta-feira, 18 de dezembro de 2008
quarta-feira, 17 de dezembro de 2008
segunda-feira, 15 de dezembro de 2008
A PROPÓSITO DISTO - Mayakovsky - A FÉ

Distendei vossa espera o quanto quiserdes
- tão clara, duma clareza tão alucinante
é minha visão que, dir-se-ia,
bastava o tempo de liquidar esta rima,
para, garimpando ao longo do verso,
entrar numa vida maravilhosa.
Eu não preciso indagar o que e como.
Vejo-o, nítido, até os último detalhes,
no ar, camada sobre camada,
como pedra sobre pedra.
Vejo erguer-se, fulgurando
no pináculo dos séculos,
isento de podridões ou poeiras,
o laboratório das ressurreições humanas.
Eis o calmo químico,
a vasta fronte franzida em meio à experiência
Num livro,
"Toda a Terra", procura ele um nome.
"O Século Vinte...vejamos, a quem ressuscitar?
A Maiakovsky talvez...
Não, busquemos matéria mais interessante!
Não era bastante belo esse poeta".
Será então minha vez de gritar daqui mesmo,
desta página de hoje:
"Pára, não folheies mais!
É a mim que deves ressuscitar!"
A ESPERANÇA - Mayakovsky

Injeta sangue no meu coração,
enche-me até o bordo das veias!
Mete-me no crânio pensamentos!
Não vivi até o fim o meu bocado terrestre ,
sobre a terra não vivi o meu bocado de amor.
Eu era gigante de porte, mas para que este tamanho?
Para tal trabalho basta uma polegada.
Com um toco de pena, eu rabiscava papel,
num canto do quarto, encolhido,
como um par de óculos dobrado dentro do estojo.
Mas tudo que quiserdes eu farei de graça:
esfregar, lavar, escovar, flanar, montar guarda.
Posso, se vos agradar, servir-vos de porteiro.
Há, entre vós, bastante porteiros?
Eu era um tipo alegre,
mas que fazer da alegria,
quando a dor é um rio sem vau?
Em nossos dias, se os dentes
vos mostrarem não é senão
para vos morder ou dilacerar.
O que quer que aconteça,
nas aflições, pesar...
Chamai-me!
Um sujeito engraçado pode ser útil.
Eu vos proporei charadas,
hipérboles e alegorias,
malabares dar-vos-ei em versos.
Eu amei...
mas é melhor não mexer nisso.
Te sentes mal?
Tanto pior...
Gosta-se, afinal, da própria dor.
Vejamos...
Amo também os bichos
- vós os criais, em vossos parques?
Pois, tomai-me para guarda dos bichos.
Gosto deles.
Basta-me ver um desses cães vadios,
como aquele de junto à padaria,
um verdadeiro vira-lata!
e no entanto, por ele,
arrancaria meu próprio fígado:
e toma, querido, sem cerimônia, come!
AMOR - Mayakovsky

*Um dia, quem sabe
ela, que também gostava de bichos
apareça numa alameda do zoo
sorridente, tal como agora está
no retrato sobre a mesa
Ela é tão bela, que, por certo
hão de ressuscitá-la
Vosso Trigésimo Século ultrapassará
o exame de mil nadas
que dilaceravam o coração
Então, de todo amor não terminado
seremos pagos em enumeráveis noites de estrelas
Ressuscita-me
nem que seja só porque te esperava
como um poeta,repelindo o absurdo quotidiano
Ressuscita-me, nem que seja só por isso
Ressuscita-me!
Quero viver até o fim o que me cabe!
Para que o amor não seja
mais escravo de casamentos
concupiscência, salários.
Para que, maldizendo os leitos
saltando dos coxins
o amor se vá pelo universo inteiro
Para que o dia, que o sofrimento degrada
não vos seja chorado, mendigado
E que, ao primeiro apelo
- Camaradas!
Atenta se volte a terra inteira
Para viver livre dos nichos das casa
Para que doravante a família
seja o pai
pelo menos o Universo
a mãe
pelo menos a Terra!
domingo, 14 de dezembro de 2008
DUQUE...MEU ROT ...QUERIDO

Eu me lembro da primeira vez em que te vi.
Você estava com medo do mundo, o mundo era muito grande e frio.
Eu te estendi minha mão e você a beijou.
Eu te pedi para vir comigo e ver o mundo.
E só porque eu te pedi, você veio.
Eu me lembro daquele dia.
VOCÊ ME ENSINOU A ACREDITAR.
Eu lembro de você como um filhote, rodeado de brinquedos, colocados lá somente para você.
Eu ria enquanto você balançava tua cabeça e latia para mim, me convidando a brincar.
Você pegava meu sapato e fugia, só para eu te perseguir até você me devolver.
Eu me lembro daquele dia.
VOCÊ ME ENSINOU A BRINCAR.
Eu lembro de você como um cão, grande e forte.
Eu via você me saudar do com teu rabo abanando, e olhos atenciosos.
Eu sorria e me sentia segura.
Eu sabia que você sempre ficaria ao meu lado.
Eu me lembro daquele dia.
VOCÊ ME ENSINOU O QUE É FIDELIDADE.
Eu me lembro de você , rodeado pelos outros amigos seus.
Eu ria enquanto você faria caretas, quando um de teus amigos te mordia e tentava fazer-te brincar.
Eu vi você com esforço , correndo para lá e para cá.
Eu me lembro daquele dia.
VOCÊ ME ENSINOU A TER PACIÊNCIA.
Eu lembro de você tempos depois, cansado e desgastado.
Eu gostaria de te pegar, te abraçar e chorar.
Você me olhava com aqueles olhos marrom claros.
E quando a tua alma falou com a minha, você deixou este mundo grande e frio.
Então, eu murmurei "Adeus".
E mesmo neste momento , quando meus olhos queimavam em lágrimas, você me ensinou uma outra lição.
Eu sempre lembrarei daquele dia.
VOCÊ ME ENSINOU A AMAR.
Eu me lembro , daquele dia , daquele dia tão triste
Debaixo daquela quaresmeira
Que agente gostava tanto de ficar
Para fugir do calor !
É lá que até hoje , voce está morando
Debaixo de um canteiro de "amor perfeito"
Que eu plantei para você ,
Então voce me ensinou uma última lição
VOCE ME ENSINOU A SENTIR SAUDADES!
Então voce me ensinou uma última lição
VOCE ME ENSINOU A SENTIR SAUDADES!
Florbella Espanca

CONTO DE FADAS
Eu trago-te nas mãos o esquecimento
Das horas más que tens vivido, Amor!
E para as tuas chagas o ungüento
Com que sarei a minha própria dor.
Os meus gestos são ondas de Sorrento...
Trago no nome as letras de uma flor...
Foi dos meus olhos garços que um pintor
Tirou a luz para pintar o vento...
Dou-te o que tenho: o astro que dormita,
O manto dos crepúsculos da tarde,
O sol que é d'oiro, a onda que palpita.
Dou-te comigo o mundo que Deus fez!
- Eu sou Aquela de quem tens saudade,
A Princesa do conto: “Era uma vez...
sábado, 13 de dezembro de 2008
William Shakespeare

De almas sinceras a união sincera
Nada há que impeça: amor não é amor
Se quando encontra obstáculos se altera
Ou se vacila ao mínimo temor.
Amor é um marco eterno, dominante
Que encara a tempestade com bravura
É astro que norteia a vela errante
Cujo valor se ignora, lá na altura.
Amor não teme o tempo, muito embora
Seu alfange não poupe a mocidade
Amor não se transforma de hora em hora
Antes se afirma para a eternidade.
Se isso é falso, e que é falso alguém provou
Eu não sou poeta, e ninguém nunca amou.
sexta-feira, 12 de dezembro de 2008
Carlos Drummond de Andrade

AMOR ANTIGO
"O amor antigo vive de si mesmo
não de cultivo alheio ou de presença.
Nada exige nem pede.
Nada espera,mas do destino
não nega a sentença.
O amor antigo tem raízes fundas,
feitas de sofrimento e beleza
Por aquelas mergulhas no infinito,
e por estas suplanta a natureza
Se em toda parte o tempo desmorona
aquilo que foi grande e deslumbrante,
o antigo amor, porém, nunca fenece
e a cada dia surge mais amante.
Mais ardente, mas pobre de esperança.
Mais triste?
Não.
Ele venceu a dor,e resplandece
no seu canto obscuro,
tanto mais velho quanto mais amor
quinta-feira, 11 de dezembro de 2008
Chico Buarque

Nicanor
Onde andará Nicanor?
Onde andará Nicanor?
Tinha mãos de jardineiro
Quando tratava de amor
Há tanta moça na espera
Suas gentis primaveras
Um desperdício de flor
Onde andará Nicanor?
Tinha amor pro porto inteiro
Um peito de remador
Ah, quem me dera as morenas
Pra consolar suas penas
Para abrandar seu calor
Olha elas sempre aflitas
Bata o vento ou caia chuva
Cada uma mais bonita
E mais viúva
Todas elas fazem ninho
Da saudade e da virtude
Mas carinho
Queira Deus que Deus ajude
Onde andará Nicanor?
Tinha nó de marinheiro
Quando amarrava um amor
Mas há recantos guardados
Nos sete mares rasgados
Sete pecados tão bons
Onde andará Nicanor?
Clarice Lispector

"Eu te conheço até o osso por intermédio
de uma encantação que vem de mim para ti.
Só há uma coisa que me separa de você:
o ar entre nós dois.
Às vezes para ultrapassar esse quase cruel afastamento,
eu respiro na tua boca que então me respira
e eu te respiro.
Mas só por um único instante, senão sufocaríamo-nos:
seria o castigo que se recebe quando um tenta ser o outro"
quarta-feira, 10 de dezembro de 2008
Clarice Lispector

Não entendo.
Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender.
Entender é sempre limitado.
Mas não entender pode não ter fronteiras.
Sinto que sou muito mais completa quando não entendo.
Não entender, do modo como falo, é um dom.
Não entender, mas não como um simples de espírito.
O bom é ser inteligente e não entender.
É uma benção estranha, como ter loucura sem ser doida.
É um desinteresse manso, é uma doçura de burrice.
Só que de vez em quando vem a inquietação:
quero entender um pouco.
Não demais: mas pelo menos entender que não entendo.
Patativa do Assaré
terça-feira, 9 de dezembro de 2008
Chales Chaplin

Sorri quando a dor te torturar
E a saudade atormentar
Os teus dias tristonhos vazios
Sorri quando tudo terminar
Quando nada mais restar
Do teu sonho encantador
Sorri quando o sol perder a luz
E sentires uma cruz
Nos teus ombros cansados doridos
Sorri vai mentindo a tua dor
E ao notar que tu sorris
Todo mundo irá supor
Que és feliz!
Vinicius de Morais

Ai, quem me dera terminasse a espera
Retornasse o canto simples e sem fim
E ouvindo o canto se chorasse tanto
Que do mundo o pranto se estancasse enfim
Ai, quem me dera ver morrer a fera
Ver nascer o anjo, ver brotar a flor.
Ai, quem me dera uma manhã feliz.
Ai, quem me dera uma estação de amor
Ah, se as pessoas se tornassem boas
E cantassem loas e tivessem paz
E pelas ruas se abraçassem nuas
E duas a duas fossem ser casais
Ai, quem me dera ao som de madrigais
Ver todo mundo para sempre afim
E a liberdade nunca ser demais
E não haver mais solidão ruim
Ai, quem me dera ouvir o nunca-mais
Dizer que a vida vai ser sempre assim
E, finda a espera, ouvir na primavera
Alguém chamar por mim.
segunda-feira, 8 de dezembro de 2008
A noite na ilha

Dormi contigo a noite inteira junto do mar, na ilha
Selvagem e doce eras entre o prazer e o sono, entre o fogo e a água
Talvez bem tarde nossos sonos se uniram na altura e no fundo
Em cima como ramos que um mesmo vento move
Embaixo como raízes vermelhas que se tocam
Talvez teu sono se separou do meu e pelo mar escuro
Me procurava como antes, quando nem existias
Quando sem te enxergar naveguei a teu lado
E teus olhos buscavam o que agora
- pão, vinho, amor e cólera
- te dou, cheias as mãos, porque
Tu és a taça que só esperava
Os dons da minha vida
Dormi junto contigo a noite inteira
Enquanto a escura terra gira com vivos
E com mortos, de repente desperto
E no meio da sombra meu braço rodeava tua cintura
Nem a noite nem o sonho puderam separar-nos
Dormi contigo, amor, despertei
E tua boca saída de teu sono me deu o sabor da terra
De água-marinha, de algas, de tua íntima vida
E recebi teu beijo molhado pela aurora
Como se me chegasse do mar que nos rodeia
*Pablo Neruda
domingo, 7 de dezembro de 2008
sexta-feira, 5 de dezembro de 2008
Cancioneiro - Fernando Pessoa

Boiam leves, desatentos
Meus pensamentos de mágoa
Como no sono dos ventos
As algas, cabelos lentos
Do corpo morto das águas.
Boiam como folhas mortas
A tona de águas paradas
São coisas vestindo nadas
Pós remoinhando nas portas
Das casas abandonadas.
Sono de ser, sem remédio
Vestigio do que não foi
Leve mágoa, breve tédio,
Não sei se para, se flui
Não sei se existe ou se dói.
Olavo Bilac

"Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!" E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto ...
E conversamos toda a noite, enquanto
A via láctea, como um pálio aberto,cintila.
E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.
Direis agora: "Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?"
E eu vos direi: "Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas."
Tem mais samba - 1964
Tem mais samba no encontro que na espera
Tem mais samba a maldade que a ferida
Tem mais samba no porto que na vela
Tem mais samba o perdão que a despedida
Tem mais samba nas mãos do que nos olhos
Tem mais samba no chão do que na lua
Tem mais samba no homem que trabalha
Tem mais samba no som que vem da rua
Tem mais samba no peito de quem chora
Tem mais samba no pranto de quem vê
Que o bom samba não tem lugar nem hora
O coração de fora
Samba sem querer
Vem que passa
Teu sofrerSe todo mundo sambasse
Seria tão fácil viver
Tem mais samba a maldade que a ferida
Tem mais samba no porto que na vela
Tem mais samba o perdão que a despedida
Tem mais samba nas mãos do que nos olhos
Tem mais samba no chão do que na lua
Tem mais samba no homem que trabalha
Tem mais samba no som que vem da rua
Tem mais samba no peito de quem chora
Tem mais samba no pranto de quem vê
Que o bom samba não tem lugar nem hora
O coração de fora
Samba sem querer
Vem que passa
Teu sofrerSe todo mundo sambasse
Seria tão fácil viver
quinta-feira, 4 de dezembro de 2008
Mário Quintana
" Tão bom viver dia a dia
A vida assim, jamais cansa
Viver tão só de momentos
Como estas nuvens no céu
E só ganhar, toda a vida
Inexperiência... esperança
E a rosa louca dos ventos
Presa à copa do chapéu
Nunca dês um nome a um rio
Sempre é outro rio a passar
Nada jamais continua
Tudo vai recomeçar
E sem nenhuma lembrança
Das outras vezes perdidas
Atiro a rosa do sonho
Nas tuas mãos distraídas"
A vida assim, jamais cansa
Viver tão só de momentos
Como estas nuvens no céu
E só ganhar, toda a vida
Inexperiência... esperança
E a rosa louca dos ventos
Presa à copa do chapéu
Nunca dês um nome a um rio
Sempre é outro rio a passar
Nada jamais continua
Tudo vai recomeçar
E sem nenhuma lembrança
Das outras vezes perdidas
Atiro a rosa do sonho
Nas tuas mãos distraídas"
quarta-feira, 3 de dezembro de 2008
Flor de Azeviche
Quando você pinta tinta nessa tela cinza
Quando você passa doce dessa fruta passa
Quando você entra mãe benta amor aos pedaços
Quando você chega nega fulô
Boneca de piche, flor de azeviche
Você me faz parecer menos só, menos sozinho
Você me faz parecer menos pó, menos pozinho
Quando você fala bala no meu velho oeste
Quando você dança lança flecha estilingue
Quando você olha molha meu olho que não crê
Quando você pousa mariposa morna lisa
O sangue encharca a camisa
Você me faz parecer menos só, menos sozinho
Você me faz parecer menos pó, menos pozinho
Quando você diz o que ninguém diz
Quando você quer o que ninguém quis
Quando você usa lousa pra que eu possa ser giz
Quando você arde ao arder e a sua teia cheia de ardiz
Quando você faz a minha carne triste quase feliz...
Você me faz parecer menos só, menos sozinho
Você me faz parecer menos pó, menos pozinho
Você me faz parecer menos... só
Menos sozinho...Você me faz parecer menos pó, menos pozinha
*Zeca Baleiro
Quando você passa doce dessa fruta passa
Quando você entra mãe benta amor aos pedaços
Quando você chega nega fulô
Boneca de piche, flor de azeviche
Você me faz parecer menos só, menos sozinho
Você me faz parecer menos pó, menos pozinho
Quando você fala bala no meu velho oeste
Quando você dança lança flecha estilingue
Quando você olha molha meu olho que não crê
Quando você pousa mariposa morna lisa
O sangue encharca a camisa
Você me faz parecer menos só, menos sozinho
Você me faz parecer menos pó, menos pozinho
Quando você diz o que ninguém diz
Quando você quer o que ninguém quis
Quando você usa lousa pra que eu possa ser giz
Quando você arde ao arder e a sua teia cheia de ardiz
Quando você faz a minha carne triste quase feliz...
Você me faz parecer menos só, menos sozinho
Você me faz parecer menos pó, menos pozinho
Você me faz parecer menos... só
Menos sozinho...Você me faz parecer menos pó, menos pozinha
*Zeca Baleiro
terça-feira, 2 de dezembro de 2008
Ferreira Gullar
A história humana não se desenrola apenas nos campos de batalha e nos gabinetes presidenciais.
Ela se desenrola também nos quintais entre plantas e galinhas, nas ruas de subúrbios, nas casas de jogos, nos prostíbulos, nos colégios, nas usinas, nos namoros de esquinas.
Disso eu quis fazer a minha poesia.
Dessa matéria humilde e humilhada, dessa vida obscura e injustiçada, porque o canto não pode ser uma traição à vida, e só é justo cantar se o nosso canto arrasta as pessoas e coisas que não têm voz.
Ela se desenrola também nos quintais entre plantas e galinhas, nas ruas de subúrbios, nas casas de jogos, nos prostíbulos, nos colégios, nas usinas, nos namoros de esquinas.
Disso eu quis fazer a minha poesia.
Dessa matéria humilde e humilhada, dessa vida obscura e injustiçada, porque o canto não pode ser uma traição à vida, e só é justo cantar se o nosso canto arrasta as pessoas e coisas que não têm voz.
Vinícius de Morais
Uma mulher tem que ter qualquer coisa além da beleza
Qualquer coisa de triste, qualquer coisa que chora
Qualquer coisa que sente saudade
Um molejo de amor machucado
Uma beleza que vem da tristeza de se saber mulher
Feita apenas para amar, para sofrer pelo seu amor
E para ser só perdão.
Qualquer coisa de triste, qualquer coisa que chora
Qualquer coisa que sente saudade
Um molejo de amor machucado
Uma beleza que vem da tristeza de se saber mulher
Feita apenas para amar, para sofrer pelo seu amor
E para ser só perdão.
Florbella Espanca
Toda esta noite o rouxinol chorou
Gemeu, rezou, gritou perdidamente!
Alma de rouxinol, alma da gente
Tu és, talvez, alguém que se finou!
Tu és, talvez, um sonho que passou
Que se fundiu na Dor, suavemente…
Talvez sejas a alma, a alma doente
D’alguém que quis amar e nunca amou!
Toda a noite choraste… e eu chorei
Talvez porque, ao ouvir-te, adivinhei
Que ninguém é mais triste do que nós!
Contaste tanta coisa à noite calma
Que eu pensei que tu eras a minh’alma
Que chorasse perdida em tua voz!…
Gemeu, rezou, gritou perdidamente!
Alma de rouxinol, alma da gente
Tu és, talvez, alguém que se finou!
Tu és, talvez, um sonho que passou
Que se fundiu na Dor, suavemente…
Talvez sejas a alma, a alma doente
D’alguém que quis amar e nunca amou!
Toda a noite choraste… e eu chorei
Talvez porque, ao ouvir-te, adivinhei
Que ninguém é mais triste do que nós!
Contaste tanta coisa à noite calma
Que eu pensei que tu eras a minh’alma
Que chorasse perdida em tua voz!…
segunda-feira, 1 de dezembro de 2008
Pablo Neruda
Amor, quantos caminhos até chegar a um beijo
Que solidão errante até tua companhia!
Seguem os trens sozinhos rodando com a chuva.
Em tal não amanhece ainda a primavera.
Mas tu e eu, amor meu, estamos juntos,
Juntos desde a roupa às raízes, juntos de outono,
De água, de quadris, até ser só tu, só eu juntos.
Pensar que custou tantas pedras que leva o rio,
A desembocadura da água de Boroa,
Pensar que separados por trens e nações
Tu e eu tínhamos que simplesmente amar-nos
Com todos confundidos, com homens e mulheres,
Com a terra que implanta e educa cravos.
Que solidão errante até tua companhia!
Seguem os trens sozinhos rodando com a chuva.
Em tal não amanhece ainda a primavera.
Mas tu e eu, amor meu, estamos juntos,
Juntos desde a roupa às raízes, juntos de outono,
De água, de quadris, até ser só tu, só eu juntos.
Pensar que custou tantas pedras que leva o rio,
A desembocadura da água de Boroa,
Pensar que separados por trens e nações
Tu e eu tínhamos que simplesmente amar-nos
Com todos confundidos, com homens e mulheres,
Com a terra que implanta e educa cravos.
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